sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Cidade e urbanismo no período renascentista.

           Um dos assuntos que mais me interessa é a cidade ou todas as cidades. A cidade como artefacto humano é objeto de estudo de diversos profissionais, curiosos por entender o modo como desenrola as relações sociais em um espaço natural modificado. Cidades podem ser estudadas, imaginadas e vividas. Em cada período histórico mudanças significativas são impressas ambiente urbano. Destacamos aqui as cidades renascentistas européias, que contribuiram de forma significativa para a concepção do citadino na América.
             O Renascimento enquanto movimento cultural manifestou-se primeiro e com mais intensidades nas cidades-estados italianas. Posteriormente difundiu-se por toda a Europa Ocidental. Faz-se importante ressaltar sua associação com o Humanismo, ou seja, interesse entre acadêmicos europeus dos textos clássicos e pelas civilizações clássicas: Grécia e Roma. Ocorrendo paralelamente um abandono dos valores medievais, classificados como: “barbarismos”, “ignorância”, “trevas” e “noite de mil anos”.
De modo geral podemos apontar como valores e ideais defendidos pelo Renascimento: o Antropocentrismo (humanidade no centro do entendimento das questões humanas); o Hedonismo (teoria ou doutrina filosófica que afirma ser o prazer individual e imediato o supremo bem da vida humana); o Racionalismo, o Otimismo e o Individualismo (afirmação da liberdade do individuo frente ao grupo, especialmente a sociedade e ao Estado). A valorização do abstrato, expresso pela racionalidade matemática e geométrica, como proporção e profundidade. É também um momento em que as artes manifestam um projeto de síntese e interdisciplinalidade bastante
 impactante, em que as Belas Artes não são consideradas como elementos independentes, subordinando-se a Arquitetura.
No campo do urbanismo as idéias e realizações, principalmente no Quattrocento representam pouco se compararmos com a arquitetura, com sua enorme e variada riqueza, em contraste com as simplórias realizações urbanísticas. Mas isso se deve também pela ausência de tratados das cidades antigas. Apenas passagens dos textos de Vitrúvio foram encontradas e essas careciam de desenhos. O pensamento vitruviano postulava que o traçado da cidade deveria sempre obedecer o sentido dos ventos, sendo a principal preocupação urbanística na concepção da urbe.

 
Urbino na Itália.

              A nova ordem do desenho renascentista ampliou, em alguns centros urbanos a beleza da cidade medieval. As principais marcas do desenho da cidade no Renascimento são: ruas retas, a ininterrupta linha horizontal de tetos, o arco redondo e a repetição de elementos uniformes (cornija, janelas, colunas, fachadas). Sendo visível a necessidade de impor a racionalidade em cada detalhe da cidade e da vida dos seus moradores. A partir do século XV arquitetos/pensadores renascentistas almejaram sanar os problemas relacionados: a higiene pública, segurança interna e defesa ante os ataques externos. Vários modelos de traçados foram idealizados, a cidade poligonal de oito ou mais lados, foi descrita como perfeita, caracterizada por sua organização circular. As ruas são dispostas no seu interior como um tabuleiro de xadrez. Giorgio Vasari (1511-1574) tentou juntar as vantagens do traçado retilíneo às do traçado radioconcêntrico.

Elementos renascentistas: a cúpula, a simetria, o ritmo e as colunas.

         Também havia no período do Renascimento uma busca pela simetria e pelo equilíbrio geométrico. Privilegiando a tendência de ruas ordenadas e complementadas pelos ofícios: se de um lado estão os médicos, do outro estarão os boticários; em frente a sapateiros os comerciantes de peles, etc. em algumas não foi possível implementar esse ideal. Outras tiveram apenas suas muralhas reformadas ou reconstruídas.
Sobre os edifícios, elemento importante para o entendimento da paisagem urbana, destaque para a estrutura das construções que sofreram no período uma simplificação, delineada anteriormente. Entre as abóbadas que sustentam o teto preferia-se a de berço e a de arestas, em vez de cruzaria ogival, visualmente mais complicada e estaticamente difícil de erguer. Quando possível desprezava-se as abóbadas, substituindo-as por coberturas de madeira, as quais implicam paredes de sustentação muito mais delgadas, econômicas e fáceis de erigir. Ou então inserir-se-ia metodicamente, entre um arco e outro, tirantes metálicos, para eliminar as pressões, assim a abóbada não só descarregava o seu peso sobre o pilar em que estava apoiada, de cima para baixo, como também impedia de derrubá-lo para fora, para evitar esse inconveniente, reforçava-se o pilar.
Quanto à ornamentação podemos destacar as ordens coríntia, toscana e compósita, como predominantes; diferenciadas pelos seus elementos característicos e elaborados capitéis com folhas de acanto, planta decorativa da região do Mediterrâneo. Elas foram utilizadas, mas sem respeitar as proporções estabelecidas pelos antigos. Esses elementos foram empregados em diversos tipos de obras, ao contrário da arquitetura medieval que consagrou a igreja. No Renascimento o edifício religioso continuou em destaque, mas rivalizando com os Palácios dos mercadores.
Enfim, os produtos das artes do renascimento (arquitetura, pintura, escultura e música) foram restritos as camadas abastadas das sociedades européias. Sendo o produto do urbanismo (traçado da cidade e construção de praças) o produto mais próximo das camadas mais baixas.
Para Leonardo Benévolo “A cultura do Renascimento modifica as condições mentais do projeto arquitetônico, mas não consegue modificar da mesma forma a prática das intervenções urbanísticas”[1]. O Renascimento sintetizou um grande experimento de racionalização da vida humana.


[1] BENEVOLO, Leonardo. A Cidade na História da Europa. Editora Presença. Lisboa. 1995. 






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